Publicado por: Outra Carol | 20 Julho 2008

Crônica de uma amizade

Aquela vizinha que dá um “bom dia” sincero no elevador, aquele rapaz solícito que informa as horas com um sorriso estampado no rosto, aquela moça na cantina que esboça uma conversa agradável enquanto espera ser atendida, aquele conhecido que divide uma bebida durante uma confraternização qualquer. Dia após dia, uma infinidade de pessoas maravilhosas passa pelas nossas vidas.

Destas, no entanto, poucas efetivamente estacionam em algum lugar. São as que, por um motivo ou por outro, atraem nossa atenção, despertam nosso interesse e que nos convidam a cativá-las ou que simplesmente nos deixam sem opção diante de investidas cativantes. Abrem-se aí possibilidades de amor (de amigo), diria Caio Fernando Abreu. Amigos-amores-amáveis vêm mesmo daí, de meras possibilidades. Caminhos cruzados ao acaso.

Do acaso, apenas isso. Todo o resto é tempo, atenção, interesse e cultivo. As palavras de carinho, os sorrisos sinceros, os abraços de cumplicidade e uma série de tantos outros “jás” que vão surgindo de maneira tão natural e espontânea que por vezes parecem preexistentes ao próprio encontro. Eis o paradoxo de dois estranhos que guardam no peito o sentimento de quem se conhece há uma vida inteira… e de quem, não satisfeito com isso, quer carregá-lo mais e mais.

Amizade não é isso mesmo?

*No dia do amigo, reedito esse texto em homenagem a todos os meus e, em especial, àquele que deu um novo sentido a essas velhas palavras.

Publicado por: Outra Carol | 5 Julho 2008

Oração para o meu amor

Porque metade de mim é amor
e a outra metade, também.
(Oswaldo Montenegro)

O meu amor é um gemido, um brado, um grito histérico que me emudece a voz para simplificar-se num sussurro, baixinho e indecifrável. Como um mistério encravado em mim, ele é o refreio do silêncio, suspiro incontrolável perdido em meio à minha respiração ofegante.

O meu amor é com força, é violento e bruto. É ímpeto mesmo quando se mostra suave, em afagos. Ele é indomável, instinto aflorado, consciência renunciada numa perda que não é prejuízo: é apenas falta de razão.

O meu amor é um dissentido. É transgressão e extravagância, mas como uma doidice tranqüila, como uma calmaria em sobressaltos. Porque ele é mais que loucura, é também bom senso, lógica e retidão.

O meu amor é espasmo que é do corpo e igualmente da alma. É aquilo que se arrebata no vai-e-vem de sensações, doação e troca. É conceder-me por inteira, receber sem medidas e transmutar-me de maneira a fazer com que de repente tudo pareça em seu lugar.

O meu amor é um não-endereço, como um vadio sem rumo que nem respeita espaço e nem tem conhecimento de tempo. Mas ele, por ser assim disperso, resvala desregrado para pôr-se entre tantas brechas que sequer sabiam possíveis.

O meu amor é sem prévias, preceitos ou pré-conceitos. É o novo, ainda a ser encontrado e caçado. Só que ele não é busca, já tem laço e nó de conquista – desfeitos e refeitos. Nisso ele é velho, gasto e usado.

O meu amor é um fora-de-moda, como verso rebuscado extraviado de um antigo soneto, hoje sem sentido. Ele não cabe mais em poemas, caiu na vida e no que há de mundano. É pecado, proibido, que nem em prece deve ser proferido. Porque ele é profano até quando é puro e santo a dizer “assim seja, amém”.

Publicado por: Outra Carol | 1 Julho 2008

Entre o pudico e o devasso

Já era tarde quando, duma conversa despretensiosa de MSN, veio o pedido: “escreve um texto de putaria”. A resposta imediata, negativa, deve ter ecoado menos do outro lado do que em minha própria cabeça. Por causa dela, escutei por horas um “e por que não?” que sequer havia sido proclamado.

Naquela noite, quase nem dormi. Fiquei pensando nisso e, num misto de inquietude e surpresa, me dei conta que sexo era um tema-tabu para mim. Não se tratava de puritanismo (e quem me conhece sabe bem). Também não podia ser uma manifestação, das mais literais, de que cão que ladra não morde. Eu mordia, ladrava e nem sequer me fazia de morta.

Ainda assim, percebi que quando, mesmo em mesas de bar, entre cervejas e verdades, desatava a falar das minhas mais íntimas experiências, tudo era dito em meias palavras, insinuadas, timidamente sacanas. Até quando explícitos, meus relatos deixavam de lado o que de mais interessante existia no assunto. Um detalhe, uma fagulha, uma explosão.

Foi então que me ocorreu: faltava ao meu universo vocabular o que de indefinível eu via no sexo. Sobre isso, nada tenho a dizer, efetivamente porque nada sei. Ou talvez saiba apenas o que importa saber. Um segredo guardado no meio das pernas – e que aos poucos posso silenciosamente revelar.

Publicado por: Outra Carol | 17 Junho 2008

Ainda sob(re) o firmamento

É como se de repente tudo isso fosse a minha própria casa. Aquela morada, antes fechada e vazia, agora se enche de portas e janelas com frestas que se deixam penetrar – e são tantas e tantas. Por meio delas, azul e branco invadem a mim mesma… e então lá estou eu, embaixo dum deslumbrante teto de nuvens.

(MAM. Junho, 2008. Videoarte de Eder Santos, foto por Bruno Sousa).

Publicado por: Outra Carol | 12 Junho 2008

Além do firmamento, eu e você

No fim de tarde de doze de junho, o céu anunciava uma noite de lua e estrelas. Muitos casais enamorados, desejosos de um certo brilho em que pudessem mirar seus desejos e sonhos, devem ter respirado em alívio. Provavelmente apenas eu procurei, naquele infinito de azul, o anuviado. Diante dele, de olhos fechados, inspirei fundo e pude sentir: era um cheiro de nuvem.

Com ele, veio também a fragrância das suas palavras. Lembrei de você, metido a poeta, nos comparando às nuvens que seguem o caminho dos ventos para fazer florescer onde despejam águas, nascendo e morrendo num eterno ciclo atemporal. Expirei, então, a vontade de que as correntes de ar soprassem a meu favor, lhe trazendo para chover junto a mim.

De súbito, aquele perfume me preencheu com volúpia. Nas minhas narinas, o aroma de nuvem exalava você – sinestesias de você a brincar com os meus sentidos. Impregnei-me dos odores da excitação do seu olhar me espiando com carinho, da suavidade da sua mão percorrendo a minha nuca, da paixão da sua boca me beijando e da força do seu corpo se estreitando contra o meu.

Entre essências e outras impressões, consegui lhe sentir por inteiro em um único estímulo olfativo. Um cheiro que só quem sobe tão alto, entre nuvens, é capaz de apreender. E para quem dizer um simples “feliz dia dos namorados”, mesmo que sussurrado com a lua e as estrelas como testemunhas, ainda parece muito pouco diante de tudo que somos eu e você.

* Este post, mesmo tendo endereço certo, é dedicado a todos que, como eu, estão passando o dia de hoje longe dos seus amores. A vocês, deixo a minha homenagem e a minha solidariedade, que também poderiam vir na forma de uma famosa canção para dizer: eu sei e vocês sabem que a distância não existe. Mas já que a vida quis assim…

Publicado por: Outra Carol | 1 Junho 2008

Quem sou e estou

Algum tempo atrás, blogueando por aí, achei um post bacana que dizia que somos o que sempre gostamos e estamos o que gostamos hoje – frasezinha de efeito que vinha acompanhada da enumeração de gostos e desgostos que brincava com uma possibilidade do português: a diferença entre ser (estado permanente) e estar (estado provisório). Fiquei então me perguntando: quem eu sou e estou?

Acho que sou sábado e domingo, embora hoje esteja quinta-feira, porque antes eu até ligava para dias da semana, mas aprendi a ser relatividade e a estar qualquer dia, ao meu bel-prazer. E para quem era studa/workaholic, trabalho após trabalho, estar pernas pra cima não só aos feriados, com mil obrigações relegadas, até que tem me feito muito bem. Porque, apesar de ser loucura, agora estou é leveza… mas aproveitem que pode ser que dure pouco, porque eu sou mesmo é peso e pressão. E também porque eu sou desejo de vencer, mas hoje estou nem aí. Porque eu posso ser Monica Geller, mas estou quase Rachel Green.

Ah, mas eu sou sempre Friends, porque eu sou principalmente bobagens com amigos, mesmo quando estou distância e solidão. Porque, com ou sem eles, eu sou pequenos prazeres, prazeres Amelie Poulin, até estando como hoje, em grandes dimensões. Porque mesmo estando vestido de festa com direito a salto alto e maquiagem carregada, eu sou é aquela calça jeans velha e allstar, sem o mínimo de glamour. Porque eu posso até estar mulher, mas sou muito mais menina, quase moleque. Porque sou brincadeira até quando estou seriedade.

É, eu sou piada, sou trocadalho do carilho. Eu sou humor, como numa crônica despojada e despretensiosa, mesmo quando estou Saramago, com parágrafos longos e mínimo de pontuação. Sou Beatles e Mutantes, rock and roll, mas hoje estou pop e mpb, cheia de refrões conhecidos. Ou nem isso, porque sou música e sou barulho, mas hoje estou o silêncio. Porque sou palavrão, jeito desbocado, sinceridade ácido-corrosiva, mas hoje estou quase uma lady, jeitosinha, delicadeza em pessoa. Porque sou vodka pura rasgando a garganta, mas hoje estou mais para guaraná natural – com muito gelo, por favor.

Aliás, eu sou é frio, embora hoje esteja calor tropical. Porque eu posso até ser lugar algum, mas estou Aracaju e Salvador, porque sou mochila nas costas e pé na estrada, mas hoje estou bem no meu lar. Porque eu sou verde, amarelo, vermelho, laranja, anil e violeta, um arco-íris de cores, mas hoje eu quero estar apenas a calmaria de um céu azul.

* O texto é uma reedição de uma reedição de uma reedição que, com algumas mudanças, já serviu para me “apresentar” umas trocentas vezes. Não é à toa: eu sou e estou ao mesmo tempo constância e volubilidade.

Publicado por: Outra Carol | 21 Maio 2008

O tempo hoje

Não importa a seca dos meus dias mais banais, em que lembranças afetuosas dos que estão longe me tocam como espinhos. O que interessa é que, para desmatar essas saudades, quando venho e vou, me chovem braços – nos quais eu mesma acabo morrendo em abraços.

(Free hugs. Janeiro, 2007).

Publicado por: Outra Carol | 15 Maio 2008

Do futuro, em retrospectiva

Era uma manhã costumeira. Do alvorecer, que de longe vinha, apenas alguns raios chegavam até a mim. Deitada, confiando nem tão cedo ser atingida pelo clarão do dia, eu estava exatamente onde queria estar. Era o princípio de tudo, vinte e quatro horas pela frente – quem sabe uma vida inteira.

O problema é que, de fato, o sol nasce para todos. E para todos também se põe. Entre auroras e meia-noites, o tempo passa num instante. Mais parece que foi ontem, aquela manhã. Qual o quê, vinte anos já transcorreram. Vinte, trinta, cinqüenta e cinco, setenta, ninguém sequer se deu ao trabalho de contabilizar.

Na urgência da vida, as contas ficam sempre para depois. Junto com elas, ficou ainda tudo o que me prometia aquela manhã. Postergadas, adiadas em nome de tantas efemeridades, estavam as possibilidades que poderiam ter sido, mas não foram. Envelhecidas, assim como eu mesma.

Ou talvez não seja precisamente eu quem envelhece. Envelhecem os meus desejos, os meus sonhos, os meus planos, as minhas esperanças – todos perdidos em uma manhã como aquela. Como a de ontem, como a de hoje. Como outras quaisquer que ainda terei.

Publicado por: Outra Carol | 11 Maio 2008

A mulher da minha vida

Ela era uma pessoa como outra qualquer. Dessas nem muito alta, nem muito baixa, nem muito magra, nem muito gorda, nem muito coisa alguma. Em meio a tantas características comuns, o que nela mais chamava atenção era o fato de ser a minha mãe. Era por conta desse título tão ordinário, o de mamãe, que ela ia além para ser em demasia. Ou para mim, pelo menos.

Em bem da verdade, é preciso dizer que as coisas nem sempre foram dessa forma. Foi em meados dos anos 80, em alguma madrugada quente de dezembro, que nos conhecemos. Ela, que há algum tempo já me sondava entre pré-natais e ultra-sonografias, me pegou de surpresa sem que eu tivesse chance de resistir: conquistou-me rapidamente com leite morno, canções de ninar e outros mimos que pareciam sem fim.

Mas, como até o infinito tem limites e medidas, um dia ela me empurrou para o mundo. Distanciando-me dela, um pouco enraivada, magoada por agora ser apenas uma, eu fui. Descobri, nessa fase, tantos indivíduos que dela logo tomariam posições. E passaram parentes, amigos, namorados. Passaram todos. Ela, não sei bem porque, continuou por perto.

Foi aí que a sua presença, ora maldita, ora bendita, começou a me intrigar. Despertou-me curiosidade aquela mulher, sempre à vista, tão firme e forte. Comecei a perceber, então, o que nela havia de mais. Ela sempre excedia o necessário. Era no olhar terno, nas palavras macias, na mão ao alcance. Era, principalmente, na paz que conseguia dar. Sem perceber, me cumpliciei outra vez. E ela já nem era, em minha concepção, uma pessoa comum. Era a mulher da minha vida.

* Post-homenagem neste que é apenas um dia (longe) dela embora ela mereça muito mais que um textinho de nada. Feliz todos os dias, dona Naza. E que felizes sejamos também nós mesmas.

Publicado por: Outra Carol | 1 Maio 2008

Do meu universo particular

Talvez seja culpa dos espelhos que, conformando-se em mostrar imagens que efetivamente não existem, me escondem tudo aquilo que esvai entre as dobras e as sombras do que se é. Em busca dessa realidade exaurida, sou eu que tento descortinar inquietações, desarranjos e outros estragos que sequer podem ser pressagiados pelas nossas certezas inventadas.

Nesses momentos, não me é raro ser tomada de assalto pela loucura. Nada de pequenas transgressões, de extravagâncias levianas, da doidice nossa de cada dia. Falo dos verdadeiros desvios da razão, daquilo que se encontra somente ao penetrar o íntimo das coisas, das que não se compartilham e nem se fazem compreender.

E então vou a fundo, procurando o entendimento do mundo, da vida, de mim. Desses mergulhos em insanidades, confesso que não sei se consigo genuinamente acessar quaisquer tipos de sentidos ocultos. Estonteados, meus estalos de sabedoria teimam em se manter circunscritos a devaneios, dos quais não faço questão de ponderar perdas ou ganhos.

Deles, guardo apenas a vontade de continuar assim, ligeiramente tresloucada. Dessa forma, quem sabe um dia eu seja capaz de discernir os grandes segredos de tudo quanto existe. Ou, pelo menos, do que existe para além das superfícies do meu universo particular.

« Novos Posts - Postagens Antigas »

Categorias