Publicado por: Outra Carol | 15 Novembro 2008

Eu-mar

Imagine, imagine o mar
e um barquinho no meio
velas, vento, tempestade
e o barquinho lá na maior
(Novos Baianos).

Até então, eu não sabia o que tanto me fascinava no mar. Foi só quando o leve balanço do meu barquinho conheceu a tempestade que consegui entender: mais do que o mar, era a força do mar que me atraia… e toda aquela agitação que se refletia em desequilíbrio dentro de mim.

Se, de fato, eu nunca fui muito afeita a uma calmaria sem ondas, de uns tempos pra cá, desaprendi a apreciar tudo que não fosse maremoto. Agora, mais do que nunca, transbordo intensidade em cada poro da minha vida. E, nessa água que extravasa daqui, deságuo em você.

Logo você que continua assim, barquinho. Pois é, imagine, imagine, imagine eu-mar… e você, apenas barquinho. Um insignificante barquinho, sem salva-vidas, sem nada, indefeso no meio do mar. Velas, vento, tempestade e você, apenas barquinho.

Publicado por: Outra Carol | 5 Novembro 2008

Diário de bordo

Naqueles olhos de ressaca, fluxo e refluxo me tragando de mar a mar, transbordo de vontades. Os meus, marinos, miram neles o balanço das ondas e o sopro dos ventos que então guiam rumos. Náutica, eu só penso em navegar. E, a aproar, navego.

Sobre essas águas inquietas, desejo. Quero sol a pino queimando a pele, sargaço ao alcance das mãos, maresia enchendo pulmões. Quero todas as sápidas experiências do sal – sal da Terra, mas não na terra.

De fato, falta-me um certo anseio por terra firme. Em alto-mar, sou mais feliz.

Publicado por: Outra Carol | 24 Outubro 2008

Tudo que é sólido desmancha no ar

E, então, agora que tudo se desfez, já nem sei o que havia de sólido em mim..

Mas e quem disse que isso precisa ser ruim?

Publicado por: Outra Carol | 14 Outubro 2008

Do exílio

São tantos valores, crenças, aspirações, desejos e receios do meu imaginário que já nem mesmo sei até que ponto tenho estado num mundo real. Deste, se capto apenas raspas e restos, como ‘deixas’ para insinuar e encenar fantasias, desprendo o meu faz-de-conta.

E então invento as minhas verdades, nas quais permito-me dar forma própria a quase tudo que experiencio. Interessam-me apenas os modos como eu – e somente eu – percebo o que se encontra ao meu redor. De ficções, existo.

Eis, pois, que a minha vida, mediada por tais versões-de-mundo que me são particulares, por vezes parece inadequar-se ao que efetivamente toma lugar para além das minhas criações. Sou uma estranha nesse ninho de realidade. E, exilada, começo a acreditar: o meu destino é o desterro.

Publicado por: Outra Carol | 28 Setembro 2008

Considerações sobre o tempo

Creio não haver algo tão ruim quanto a espera, essa tortuosa luta contra o relógio em que nada resta para fazer além do próprio esperar. Esperar por um gesto sincero, por um amigo que está distante, por um amor que insinua desabrochar, por uma possibilidade qualquer.

O tempo, em tais circunstâncias, maltrata. Os ponteiros dos segundos, normalmente tão ligeiros, parecem não andar: mil minutos se passam, então, dentro de um único instante. E vêm também as horas, os dias, os anos… todo o tempo do mundo excedendo-se vagarosamente à nossa frente.

Talvez pior que isso apenas quando as voltas do relógio deixam de importar.  À espera, sucede-se desesperança. Aí, efetivamente, aquilo pelo qual tanto se expecta tem mesmo chances de sequer sobrevir. A vida, vazia, mantém-se somente suspensa num tic-tac.

Publicado por: Outra Carol | 19 Setembro 2008

Sobre frios e outros desagasalhos sentimentais

Sabe quando o céu escurece,
as nuvens pesam sobre as nossas cabeças,
o ar e a luz do sol ficam de um jeito estranho
e o pessoal fala ‘vai chover pra burro’?
(João Paulo Cuenca)

É nesses dias nublados em que o mundo parece querer desabar em água que mais me lembro a falta que você faz. É principalmente quando a chuva prometida lá fora vem em pranto aqui dentro e, em minha face, cai a regar os lábios que insistem em continuar escancarados num sorriso.

Nessas ocasiões, a tristeza da sua ausência se mistura com a alegria das lembranças de tantos momentos antes compartilhados – e se misturam fisicamente, lágrima e saliva. Entre uma e outra, a leve brisa que entra pela minha janela transforma-se em frio; e de repente é inverno.

Se procuro em xícaras de chocolate quente e cobertas de lã uma fagulha qualquer que ajude a esquentar-me, nada parece suficiente sem o calor do seu abraço para agasalhar. Gélida, continuo temporal. Em tempestade, raio e trovão, espero um amanhã ensolarado. Espero apenas você, gota, suor e oceano.

Publicado por: Outra Carol | 8 Setembro 2008

Em meu caminho

Se aos meus passos imprecisos nada mais parece convir para além das sombras, algo há de significar todas essas luzes que agora se interpõem em meu caminho – como pequenos faroletes divinos, a me guiar.

(Sombras, luzes e folhas secas. Agosto, 2008).

Publicado por: Outra Carol | 26 Agosto 2008

E mais palavras

Permita-me continuar com o meu habitual desperdício de tantas palavras. Preciso expressar, embora num aparente gasto sem proveito, o que de elocução ainda existe em mim. Mas, por favor, não leve a mal: se me escondo atrás de sujeitos, verbos e complementos, é porque somente a partir deles me dou a conhecer.

A verdade é que nada me resta para além destas linhas mal escritas. Tudo o que sou cabe entre as minhas vírgulas e os meus pontos finais. Isso pode parecer-lhe pouco – e talvez efetivamente o seja. A mim, não importa. Não espero que as minhas palavras me engrandeçam, trazendo verdades sobre quem nem sou. Nada de devaneios imaginativos, de realidades inventadas ou de certezas que se desfazem no ar.

Interessam-me apenas sentidos de mim, deixar-me fluir nos meus próprios termos. É exatamente assim, mesmo quando sou incapaz de neles me encaixar, mesmo quando escorro vazia entre pausas e silêncios, que posso me revelar. Como as minhas palavras, sou incompleta, insuficiente. Mas me basto.

Publicado por: Outra Carol | 11 Agosto 2008

Palavras, apenas

Desde cedo encantada com as palavras, eu já comecei a vida vangloriando-as. Não seria de se estranhar se o primeiro som proferido pela minha boca – em vez do tão comum “mamãe” – tivesse sido “palavras” (assim mesmo, no plural).

Foi de tal modo que, pouco a pouco, passei a empreender uma busca incessante por elas. Egoísta, queria conhecer e experimentar toda e qualquer palavra que me aparecia pela frente… experimentar, claro, porque apenas ler definições de dicionário não me fazia sentido algum.

Fui descobrindo, pois, os gostos e desgostos de um sem número de palavras. Descobri o que era amizade, amor, serenidade, loucura e tantos outros vocábulos. A partir deles, todas as pessoas, todos os acontecimentos, todos os sentimentos, tudo ao meu redor era prontamente transformado em narrativas e descrições, tudo era logo rotulado com meia dúzia de palavras.

Hoje, no entanto, não consigo me satisfazer com elas: é como se de repente as palavras deixassem de tanto importar. Talvez porque agora a vida se mostra complexa demais para ser apreendida por unidades tão mínimas. E nem mesmo milhões de palavras conseguem, sequer incompletamente, dar conta de uma existência emaranhada.

Este texto, ele próprio, é incapaz de traduzir o que se passa de verdade por aqui. Não serei leviana o suficiente para continuar, de tal maneira, insistindo no erro da verbalização. Deixo, então, apenas o meu silêncio…

(Reticências sem fim, por favor).

Publicado por: Outra Carol | 1 Agosto 2008

Embaixo da cama

Toda noite, no apagar das luzes, algumas sombras entram pela porta escancarada do meu quarto. Como uma criança que acorda de um pesadelo, procuro embaixo da cama os monstros que outrora povoavam os meus sonhos. Lá, encontro se não bichos-de-sete-cabeças, fantasmas que se desprendem do passado para me tomar entre os lençóis… são os restos do que fui.

Em meio à poeira de tantos anos, vejo uma criatura que, se algum dia se pareceu comigo, agora me fita os olhos com veemência numa tentativa de fazer-se reconhecer. Mas, apesar de enxergar nela semelhanças, sou incapaz de equipará-la a mim. Alheia às mudanças que o tempo me trouxe, aquela não mais sou eu.

Ainda assim, na penumbra do medo, às vezes me deixo enganar e já nem sei quem é quem. Em certas ocasiões, quando me arrisco em batalhas, é a mim mesma que atinjo. E saio em desvantagem: intocável, o passado a põe em primazia – de antemão, trago dela cicatrizes e seqüelas das quais não consigo me desvencilhar.

Não desisto. É sempre nas lutas quase dadas como perdidas que, num ímpeto de coragem e esperança, as minhas unhas se fincam no presente. Assustada, aquela que não mais sou eu refugia-se outra vez embaixo da cama. Em minhas mãos, mesmo que sob as unhas se acumulem sujeiras do que deixei pra trás, só o que me resta é a vitória de ter me tornado aquilo que sou.

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